02-06

Carla Marques*

 

A sociedade moderna é um monstro voraz capaz de roubar ao ser humano aquilo que é conhecido como “tempo”. A desenfreada corrida do quotidiano deixa cada vez menos tempo para aquilo que se designa por “tempo livre”. Este conceito, cada vez mais estranho e desprezível aos olhos da moderna máquina social, vai caindo em desuso e leva consigo idosos, adultos e também crianças. A sociedade exige adultos com uma capacidade de produção cada vez maior, nega aos mais idosos a saída atempada da “vida activa” e rouba às crianças o tempo para brincar.

A nova filosofia que defende uma “população cada vez mais activa” muito em vigor em Portugal, e noutros países afins, está a anular a vivência em família e a consumir um tempo que seria dedicado aos “tempos livres”. Há alguns anos, os avós estavam disponíveis para os seus netos, as mães estavam mais presentes no lar, e os pais também, as crianças frequentavam as escolas, ditas “primárias”, respeitando horários mais suaves. Os tempos para a aprendizagem e para o trabalho conjugavam-se mais naturalmente com horas para “fazer de conta”, para brincar a tudo o que a imaginação exigisse, com a família, com os colegas do prédio, da rua, da terra. Hoje, o mito da escola “a tempo inteiro” mata esta forma de viver a infância. As crianças ficam “emparedadas” em escolas durante todo um longo dia, os pais, esses, fecham-se no seu emprego. As famílias reúnem-se somente ao final de um longo dia, cansadas, esgotadas, sem vontade ou tempo para brincar. As escolas, essas, ainda oferecem aos pais e aos alunos “trabalhos de casa”, por vezes longos e entediantes. Estes são realizados em tensão, como mais uma obrigação que se deve cumprir, como um prolongamento de uma escola já demasiado longa, quando o que apetecia era ser um pouco criança. “Oh mãe! Mas quando é que temos tempo para brincar?”

Por vezes, urge parar! Que virtualidade reside em obrigar as nossas crianças, sobretudo as mais jovens, a este esforço suplementar? Os assim designados trabalhos de casa servem, em tese, para a aplicação de novos conhecimentos e permitem aos pais um acompanhamento dos seus educandos. Mas, não estaremos a aplicar soluções “antigas” a um modelo novo?

Algo tem de ser repensado nesta sociedade que se constrói “sem tempo livre”. As nossas crianças estão lenta e gradualmente a deixar de brincar. Esta actividade que exige tempo é essencial para o seu crescimento, para a sua socialização, para a gestão das emoções… Enfim, para a preparação dos adultos futuros. A nova sociedade em que vivemos e que ajudamos a construir está a exigir das nossas crianças que sejam pequenos adultos e que, como tal, não tenham tempo para brincar. A vida é muito séria … e difícil. E depois das aulas, temos os trabalhos de casa e as actividades extra-curriculares (porque a escola não oferece tudo) e aos fins-de-semana temos mais actividades porque as crianças gostam de se sentir ocupadas. Achamos nós…

As famílias estão cada vez mais afastadas, o tempo do “faz-de-conta” é cada vez mais reduzido. E qual é o resultado de tudo isto? Os nossos alunos têm melhores resultados? Os nossos filhos passaram a ler mais? Os pais conhecem melhor a vida dos seus pequenos filhos? Cada vez mais, as famílias são o somatório de diversas vidas alheias, desconhecidas, que se juntam ao final do dia, para jantar e ir para a cama num mesmo espaço chamado “casa”.

Uma sociedade que não acarinha as suas crianças é necessariamente uma sociedade que prefere fechá-las em espaços limitados, para que os adultos possam estar noutro local que não com elas. Uma sociedade que não se preocupa com o material humano é necessariamente uma sociedade que não acarinha as relações humanas. Uma sociedade que vive para o presente é necessariamente uma sociedade que não vê em cada criança um futuro adulto que poderá ter muitos rostos e muitos deles dependem do que se lhes oferecer hoje.

Concedamo-nos o tempo de pensar nisto antes que o tempo nos mostre que é tarde demais!

*Carla Marques - Mestre em Linguística e doutoranda na mesma área; autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico: docente na Escola Secundária/3 de Carregal do Sal.



publicado por Correio da Educação às 10:47
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De Aurora Mestre a 18 de Junho de 2010 às 23:23
Concordo plenamente com o seu artigo. Sou mãe de dois adolescentes, uma aluna universitária e outro que o será no próximo ano. Os meus filhos tiveram a sorte de não pertencer à geração AEC's e tiveram a possibilidade de frequentar um ATL onde podiam brincar, "fazer de conta", enfim, ser criança. Sou professora do 1º ciclo e imponho como regra, que negoceio com a turma e com os pais, dias da semana sem TPC. Temos a obrigação de deixar as crianças sê-lo por inteiro pois corremos o risco de ter gerações futuras com graves problemas de identidade e equilíbrio emocional.


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