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Correio da Educação

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1. Quarta-feira, 14 de Abril, a Europa foi confrontada com um fenómeno natural que nos lembrou a fragilidade do progresso. Não é prim eira vez que ficam a nu as debilidades das nossas conquistas científicas e tecnológicas. Felizmente, porém, não é todos os dias que a sua visibilidade atinge dimensões, em extensão e profundidade, como as que observamos desde esse dia.

Com efeito, a erupção do vulcão, denominado “montanha glaciar da ilha”, na Islândia, voltou a derreter o glaciar da montanha, após uma primeira erupção no dia 20 de Março. Desta vez, porém, está a incomodar a vida de milhões de pessoas.

De facto, em três dias, de 14 a 16, impediu os voos na Europa e noutras partes do mundo, e
1,3 milhões de passageiros foram afectados ou retidos nos aeroportos, incluindo Cavaco Silva, em visita oficial à República Checa. Regressou de carro até Barcelona… Só em dois desses três dias, foram cancelados 17 mil voos e, no último, ficaram 263 ligações aéreas por fazer em Portugal.

2. O homem habituou-se a medir a História pelas conquistas a que acede. Inicialmente, e de modo um tanto ou quanto estranho, no campo espiritual, humano e intelectual. Mais próximo de nós, tais conquistas são, sobretudo, nos campos científico, técnico e tecnológico.

É, assim, que ficamos maravilhados com a sabedoria de vida, alcançada pelos habitantes do Médio Oriente e transmitida de seguida a Gregos e Romanos. Entre estes ambos, surgem já manifestações de regozijo e entusiasmo perante tentativas, reais ou míticas, de conquistas técnicas ou tecnológicas.

Aí se situam as narrações do “cavalo de Tróia”, na Odisseia, retomada na Eneida por Virgílio, e da tentativa de Ícaro voar, para se libertar da prisão em que se encontrava com o pai, segundo Ovídio, em Metamorfoses.

Nós ultrapassámos a conquista dos mares com uma tecnologia bem nossa e cujo sucesso foi ao ponto de sermos os únicos a colocar um canhão sem recuo em cima de um barco sem este se virar. Tal feito valeu-nos o domínio do mundo durante cinquenta anos.

Quanto à conquista do espaço, ficámo-nos pela passarola voadora do Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, quando a 8 de Agosto de 1709, construiu o primeiro engenho mais-leve-que-o-ar, para espanto da corte. Mas a França e a Inglaterra, em 1969, com o avião “Concorde”, conseguiram pôr um passageiro em Nova Iorque mais cedo do que a sua hora de partida da Europa! Voou pela última vez no dia 24 de Outubro de 2003… tendo terminando em acidente grave.

Ora aquilo que durante séculos foi ambição dos espíritos mais dotados e brilhantes, ao fazerem as primeiras investidas no mundo da técnica e da tecnologia, tornou-se hoje o meio envolvente da maior parte dos cidadãos trabalhadores.

A tecnologia, decorrente de técnicas cada vez mais abundantes e sofisticadas, envolve-nos de dia e de noite, no trabalho e no laser, nas acções mais vitais do homem como na mais extravagante manifestação da criança ou do adulto.

E nesta longa, mas sustentada, viagem em direcção ao progresso, ficou lá bem perdida no tempo e no horizonte do homem moderno a Natureza-Mãe. Daí o nosso enleio matinal diante do chilrear dos pássaros, numa caminhada retemperadora, ou a surpresa de uma paisagem primaveril no Douro. Sentimo-nos a regressar ao paraíso perdido, tal é o dinamismo recebido desses ambientes.

Mas, também, o niilismo de um serão de Inverno, em ambiente aquecido e à volta de uma boa mesa, nos projecta no tempo em que o homem nada tinha a fazer nessa estação do ano, desfrutando da abundância das colheitas do Estio. Recompensa dos trabalhos e da esperança de nova Primavera.

 

3. Mas haverá incompatibilidade entre o progresso, com a fuga à ignorância e ao erro, e o quotidiano do homem moderno, reconhecendo a validade do estádio de equilíbrios antigos?

Não, desde que se preencham duas condições. Por um lado, o alerta constante para a fragilidade do progresso, por este ser uma conquista inacabada perante as leis da Natureza. Por outro, a busca permanente dos equilíbrios interiores, sem os quais o homem não consegue (sobre-)viver.

É que a Mãe-Natureza não perdoa àqueles que não a conhecem ou a não respeitam interior e externamente. Tenham-se presentes quer as monstruosidades que regularmente nos chegam quer as catástrofes, ditas, naturais que, de tempos a tempos, nos entram em casa.

J. Esteves Rei - Professor Catedrático de Didáctica das Línguas e de Comunicação, na UTAD, Vila Real


 

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