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Correio da Educação

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Carla Marques*

 

Cada vez mais se verifica uma pressão social de que aquilo que se ensina na escola sirva para alguma coisa. Fotografar será importante num curso de Marketing, realizar desenho técnico num curso de Design, podar videiras num curso de Enologia, programar computadores num curso de Informática. Todavia, esta necessidade de materialização do saber convertido em realização de utilidade pragmática não é nem poderá ser a vertente central e predominante do ensino na sua dimensão geral de formação de seres humanos, futuros cidadãos conscientes e activos. Os nossos alunos, os seus encarregados de educação e até mesmo algumas correntes do poder político vivem obcecados pela importância da aplicabilidade imediata das aprendizagens, mas as escolas não são fábricas de produção em série de executantes. Nas escolas deveria, antes de mais, começar por ensinar-se a pensar, procurando a formação de alunos cultos, conhecedores de diferentes áreas do saber, informados, conscientes e críticos. A componente técnica virá numa fase posterior e poderá ganhar com uma formação globalizante de base um enquadramento mais complexo que a enriquecerá.

 

É neste quadro de pragmatização do ensino que nos últimos anos se tem equacionado a questão da utilidade de muitas aprendizagens entre as quais se encontra o ensino da gramática. Na aula de Português, o espaço concedido ao ensino dos conteúdos gramaticais tem sido, não raro, subalternizado pelo ensino da literatura e, de seguida, da escrita. Muitos professores confessam inclusive preferir “ensinar” literatura a “ensinar” gramática, fruto de uma vocação que os terá levado aos cursos de Letras, resultado de um trauma provocado por alguma cadeira da área da Linguística ou, quiça, sobretudo nas gerações mais novas, consequência de ausência de formação na área do Latim (quantos professores confessam que só compreenderam verdadeiramente a gramática da língua por meio do estudo do Latim?). A realidade é que a gramática tem sido, frequentemente, uma nota de rodapé nas aulas de Português e pouco se tem investido na renovação das metodologias associadas ao seu ensino e no acompanhamento dos avanços da área dos estudos linguísticos. Permanece a ideia difusa de que ensinar gramática é sobretudo centrar-se nas áreas da morfologia, classes de palavras e sintaxe, através de exercícios de sistematização: quadros, sistemas de regras, exercícios truncados, completamento de frases… uma certa rotinização da aprendizagem parece ser previsível.

O aluno, no momento em que se senta nos bancos da escola, é já possuidor de uma gramática implícita que faz dele um falante com algum grau de proficiência. Este facto funciona, não raro, como um elemento perturbador da efectiva necessidade de se ensinar explicitamente gramática. Não obstante, o papel da escola terá de passar pela reflexão em torno da análise do funcionamento da língua. Esta análise é importante para a compreensão do ser humano enquanto ser cultural e social. Será ela, entre outras áreas do saber, um dos elementos fomentadores do desenvolvimento da capacidade de cognição dos alunos. Analisar a gramática de uma língua é descobrir as suas regularidades, a sua significação, as possibilidades de combinação, os factores de uso. No fundo é descobrir a sua norma e os seus desvios. Só palmilhando este caminho será possível ao aluno falar com propriedade, compreender por que o faz dessa forma e não de outra e, ainda, mergulhar, por exemplo, nas irregularidades da escrita literária, compreendê-las em profundidade e saboreá-las conscientemente.

Estudar gramática é um acto essencial para compreender a língua que falamos, para compreender e aprender outras línguas, para falar bem, ouvir bem, escrever bem e ler bem. Desta realidade advém a clara transversalidade do estudo da gramática de uma língua: nela assentam as raízes de outros saberes que, assim sediados, poderão prosperar de forma mais densa e substantiva.

Assim, da escola só podemos esperar que desenvolva nos seus alunos a consciência activa da forma de funcionamento da língua, através da qual estes comunicam. Aliás, o mesmo se verifica com outras realidades com que os alunos empiricamente contactam, como pertinentemente lembra Maria Helena Mira Mateus, quando lança a questão: «não é assim com a respiração, embora aprendam o aparelho respiratório? Com a alimentação, embora aprendam o aparelho digestivo?»1

Ensinar gramática? Porquê? Porque sem esta aprendizagem seríamos um pouco menos Homens!

 

1 In http://www.ciberduvidas.com/controversias.php?rid=830, consultado em 5 de Janeiro de 2010.

*Carla Marques - Mestre em Linguística e doutoranda na mesma área; autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico: docente na Escola Secundária/3 de Carregal do Sal.

 

 

 

 

 

 

 

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