31-05

* José Matias Alves

A escola é um espaço tempo de aprendizagem. Este é o foco que deve mobilizar a atenção de todos os responsáveis pela ação educativa. A planificação, a organização e as decisões devem visar a criação de melhores oportunidades de aprendizagem. Em primeiro lugar, a aprendizagem dos alunos. Nenhum pode ficar à margem deste processo de crescimento. Mas também a aprendizagem dos professores, dos funcionários e dos pais e encarregados de educação. Todos são convocados para aprender novos conceitos, novas visões e disposições, novos métodos que aumentem as probabilidades de aprender. Como dizia António Nóvoa, o centro (e o sentido) da escola é a aprendizagem e as pessoas que a realizam.

 

Mas a aprendizagem significa, muitas vezes, a desaprendizagem. Fernando Pessoa pela visão de Alberto Caeiro sabia-o:

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.


Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
(poema XXIV)


Trazemos a alma vestida de rotinas, de preconceitos, de mitos e ilusões. Precisamos de raspar a tinta com que nos embotaram os sentidos (Alberto Caeiro) para ver a realidade das pessoas que são a escola. Para ouvir e escutar os pedidos silenciosos de muitos alunos que usualmente ficavam abandonados de si mesmos no fundo da sala. Para sentir os apelos inauditos e compreender os motivos das recusas e do não querer.  

Esta aprendizagem pressupõe, como dissemos, uma disponibilidade para desaprender. Nas palavras de Olivier Reboul (1983):

O que é aprender, em todos os domínios, senão “desaprender” alguma coisa, deixar um hábito ou uma certeza no mais íntimo de nós próprios? Aprender é, antes de mais nada, romper com hábitos que se tornaram uma segunda natureza, é “desaprender” a respirar quando se trata de desporto ou de música, é “desaprender” os sons e a sintaxe da sua própria língua quando se pretende aprender outra. E o que é compreender, senão abandonar as pseudocertezas, afastar os “obstáculos epistemológicos” devidos à tradição e à experiência ingénua, recusar as verdades primeiras que nunca mais são, segundo Bachelard, que “erros primeiros”? Finalmente, o que é aprender a mudar, a renunciar corajosamente ao conforto e ao conformismo em que uma pessoa estava instalada como em sua casa, para vir a ser, enfim, ela própria. Aprender realmente é sempre “desaprender”, para vencer o que nos paralisa, nos encerra, nos aliena.

Esta desaprendizagem é, de facto, uma condição essencial de mudança. Mudar de visão (sobre a função primeira da escola, sobre a função do professor, sobre o estatuto de aluno…), mudar de modos de trabalhar e interagir no espaço escolar são operações essenciais que têm de ser garantidas pela pressão e pela persuasão.

 

* José Matias Alves é investigador, doutor em Educação e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa.



publicado por Correio da Educação às 15:30
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