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Correio da Educação

Correio da Educação

 

* José Matias Alves

 

Está em curso mais uma reforma curricular. Mais hora ou menos hora. Tira aqui e coloca ali. Reforçando a visão disciplinar do conhecimento. Decretando que os conhecimentos mobilizáveis para agir, conhecer, intervir e transformar o mundo e dar sentido à vida não têm dignidade curricular. Só o conhecimento puro (mesmo que seja o sistema nervoso da mosca que para “nada” serve) é que importante.


Está em curso uma suposta mudança de paradigma. Mas não se conhece o horizonte, a substância, a rota, o rumo. Vive-se na era do vazio, da incerteza e da ameaça. De cortes e de asfixia. Com os diretores das escolas transformados nos chefes de secretaria preenchendo formulários eletrónicos nas plataformas centrais. Com os professores cansados de tanta mudança inútil porque não toca no essencial.

 

E é inútil porque não é isso que faz os professores ensinar melhor. Que faz os alunos aprender mais. Que faz a organização escolar querer mudar de registo e de práticas. E pode ser até prejudicial porque há um enorme cansaço e desilusãonas escolas. Que esperam (mesmo que disso não tenham consciência) que seja possível um outro sentido para a ação profissional. Muito mais fundado na liberdade e na autonomia e no risco. Na possibilidade de autoria de normas próprias no campo da organização do conhecimento, do agrupamento dos alunos, na gestão do tempo.


Como o atesta a insuspeita OCDE (2010):
Les réformes ont un impact constant sur les structures superficielles et les paramètres institutionnels des écoles, mais il est beaucoup plus difficile d’agir sur les activités fondamentales et la dynamique des apprentissages de classe.

 

Justamente. Entre nós persiste esta ilusão. Precisamos de passar da ordem do mando para a ordem da autonomia e da responsabilidade. Da ordem do domínio e do controlo remoto para a ordem da criação local. Porque é isto que nos faz crescer. Porque é isto que nos faz querer. Como pessoas, como profissionais e membros de organizações que também podem aprender.


* José Matias Alves é investigador, doutor em Educação e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa.

5 comentários

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    gaivota 24.01.2012

    O sr. não sabe mesmo do que está a falar. São linguagens diferentes... Que tristeza! É por isso que o ensino está como está. Alguns professores julgam-se donos da verdade absoluta e essa, como sabemos, não existe.
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    Costa200 24.01.2012

    Fala de arrogância? Porque de facto estou em posição para "fazer" em vez de "falar de"...? Isso não é arrogância, é bom senso. Não dou palpites ao meu mecânico, não explico as leis ao meu advogado, não rejeito os diagnósticos do meu médico. Poderia fazê-lo e se as minhas ideias fossem recusadas eram-no provavelmente com razões que a sua preparação e experiência profissional lhes conferiu.

    Apenas exerço a mesma prerrogativa. Oiço opiniões de amadores, 99% disparatadas e normalmente acompanhadas de exemplos infelizes de quem não domina o assunto (sem questionar a inteligência do interlocutor) e quase invariavelmente tenho de as rejeitar. É isso um grande drama? Porque é que todo o mundo acha que é especialista em educação e os que assim consideram trabalham normalmente em campos quase paralelos que só ocasionalmente intersetam algo de real interesse?

    Não é esta realidade a fonte do excesso de reformas no ensino português? A reforma que é verdadeiramente necessária é não haver reforma nenhuma de deixar as escolas, onde estão os verdadeiros profissionais deste campo, trabalhar em paz, sem o excesso de cargas burocráticas e tolices afins emanadas de um qualquer gabinete de nomeação política.
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    gaivota 24.01.2012

    Sr Costa,

    Neste assunto tão complexo que é a escola, o ensino e a educação um dos maiores perigos que podemos correr é a tentação para a generalização. O sr. está a generalizar, mais uma vez em cima do seu pedestal. Fala como se todos os especialistas em Educação, como o senhor diz, não tivessem já sido professores e não conhecessem perfeitamente o terreno, grande parte deles são ou já o foram. A questão não é essa. Estamos a falar de paradigmas diferentes. A escola não é só instrução, por isso não deve ser demasiado disciplinarizada. Existem outras dimensões da educação que não podem se mesmo disciplinarizadas. Ou o senhor tem dúvidas sobre isso? Nem todos os alunos que estão na escola vão ser médicos, engenheiros, professores...mas todos vão ser cidadãos! A escola tem obrigação de lhes criar condições para aprenderem a ser cidadãos no sentido pleno da palavra. Uma coisa é ser um bom aluno, outra coisa é ser um bom cidadão. A educação não pode ser toda disciplinarizada. Nem só o português, a matemática, a história e a geografia são importantes para a formação do indivíduo. Não está de acordo?
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    costa200 24.01.2012

    "Neste assunto tão complexo que é a escola, o ensino e a educação um dos maiores perigos que podemos correr é a tentação para a generalização. O sr. está a generalizar, mais uma vez em cima do seu pedestal. Fala como se todos os especialistas em Educação, como o senhor diz, não tivessem já sido professores e não conhecessem perfeitamente o terreno, grande parte deles são ou já o foram."

    Todos não. Só a maior parte, infelizmente. E os que passaram pelos níveis de ensino relevantes, em norma, deixaram-nos porque não eram muito bons naquilo que faziam e procuraram uma posição da sociedade que lhes limitasse o contato com os alunos. São raras as exceções, mas é muito positivo que existam. O problema é que normalmente as vozes dos que vale a pena ouvir são afogadas pelos números.

    Quanto a pedestal, nunca tive. Caso não tenha notado, estou aqui a trocar impressões com os senhores, nada mais.

    ". Existem outras dimensões da educação que não podem se mesmo disciplinarizadas. Ou o senhor tem dúvidas sobre isso?"

    Não tenho dúvida nenhuma. Nem sequer me referi a esse aspeto. Agora diga-me, qual foi o efeito real das não disciplinares ao longo destes anos no ensino português? Aumentou o desempenho em qualquer aspeto mensurável? Houve uma grande onda de apoio a esses tempos por parte dos alunos ou professores que os trabalharam?

    Posso dizer por experiência própria de várias escolas por onde passei que a generalidade das pessoas e alunos consideravam tais tempos como um desperdício de tempo semanal. Os alunos chegam hoje ao Ensino Secundário sem os conhecimentos e capacidades básicas para chegar a um nível apropriado ao Ensino Universitário.

    Na verdade a única defesa que esses tempos não disciplinares têm hoje em dia é corporativa, dos sindicatos (questão de horários disponíveis) e de pedagogos que nunca tiveram de verdadeiramente trabalhar esses tempos.

    É que num ensino de qualidade, que exige tempo, todas as componentes dessas não disciplinares são trabalhadas, ao mesmo tempo que verdadeiros conhecimentos são adquiridos e capacidades desenvolvidas.

    "Nem todos os alunos que estão na escola vão ser médicos, engenheiros, professores...mas todos vão ser cidadãos!"

    Evidentemente, mas não vi demonstração objetiva de que um aluno que frequente os ditos espaços não disciplinares seja melhor cidadão que outro. Mas vejo todos os dias alunos que terão capacidades limitadas numa economia mundial em falência pela falta de perícias técnicas e mesmo artísticas quando comparados com exemplos doutras nações.

    Não sou nenhum fundamentalista. Tem de ser criado espaço para trabalhar certos aspetos de cidadania, mas os moldes não serão os que ocorrem neste momento.

    Também não sou ingénuo. Esta "reforma" é quase só economia. Não me parece ter uma verdadeira ideia que lhe sirva de base.


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