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Correio da Educação

Correio da Educação

 

* José Matias Alves



Continuamos a viver num sistema marcado por várias ilusões: a ilusão do comando e do controlo, a ilusão do poder dos decretos e do diário de república (vasto cemitério de leis); a ilusão das lideranças heroicas, salvíficas e solitárias; a ilusão da comunidade educativa; a ilusão dos projetos, planos e programas.
Nesta crónica defendemos a tese de que quando há um excesso de planificações, planos e projetos a realidade tende a ficar muito aquém do desejado e previsto. Mais: tende a ser substituída pelas ficções das narrativas que se escrevem ou esquematizam. Partindo de Pfeffer e Sutton (2000, 2006) identificamos 5 barreiras à ação resultantes deste excesso:

1. Quando o discurso e a escrita substituem a ação. Na arena escolar, muitas vezes basta escrever para não ter de agir. Outras, o esforço de planificar esgota a vontade, a energia ou tempo para concretizar. Outras ainda, o que interessa, segundo a boa regra burocrática, não é o fazer mas o que se escreveu sobre o que se vai fazer ou sobre o que já se fez.

2. Quando a memória substitui a nova ação. A ênfase da planificação alimenta-se, em regra, da memória, do passado e isso dificulta um ajustamento às novas realidades emergentes.

3. Quando o medo impede a ativação de novo conhecimento. Quando as pessoas estão sob pressão e com medo do seu futuro, não vão trabalhar com afinco, imaginação e ousadia. Pfeffer e Sutton encontraram duas consequências negativas em organizações que eram governadas pelo medo: (1) levou as pessoas a concentrarem-se apenas no curto prazo, muitas vezes causando problemas a longo prazo, e (2) enfatizou a sobrevivência individual, desprezando a coesão do coletivo.

4. Quando a obsessão da medida obstrui o bom senso. Uma preocupação com resultados de medição em sistemas de monitorização que (a)
são muito complexos, com muitas medidas, padrões e indicadores difíceis de operacionalizar, (b) são altamente subjetivos na implementação, e (c) muitas vezes fazem perder importantes elementos de desempenho.
 
5. Quando a concorrência interna transforma amigos em inimigos. Quem é o inimigo? Pessoas dentro da organização ou concorrentes externos?
Se a concorrência e a competição internas são a filosofia de gestão, isso (a) promove a deslealdade para com colegas e a organização como um todo, (b) prejudica o trabalho em equipa, e (c) inibe a partilha de conhecimentos e a disseminação das melhores práticas.

Vivemos sob o signo da projetocracia, do excesso de planificações e planos. No excesso de retórica e pobreza de práticas (Nóvoa). Da avaliocracia. Precisamos de um novo tempo. Um tempo de leveza dos planos; um tempo de ativação das inteligências adormecidas; um tempo de mais contacto na ação coletiva; um tempo de menos papéis; um tempo de mais reflexão colaborativa; um tempo de uma ação mais humilde, arriscada e empreendedora.Escreva aqui o texto que pretende esconder - E não se esqueça de remover esta mensagem

 

 

* José Matias Alves é investigador, doutor em Educação e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa.

3 comentários

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    Adelina F. 28.12.2011

    Permita-me, Teresa, que a trate por colega.
    Concordo plena/ consigo.
    Não sei que níveis étários tem, mas, por experiência própria, os professores "do meio" (não do "primário" e não do E. Superior) nunca foram muito unidos e... cada vez menos (??). Estive durante 20 anos, em regime de acumulação, num colégio (onde fui muito feliz). Mas, ultima/, interferiam na m/ vida escolar com falta de dignidade. Nessa ocasião "refugiava-me" na que eu chamava de "m/ escola", onde estou há 33 anos.
    Poucos anos depois..., comecei a sentir na "minha escola" o que sentira no ensino particular (??).
    Concordo que tem de haver MESMO muita UNIÃO, mas sempre com MUITA DIGNIDADE - somos professores/
    educadores e, o exemplo deve vir sempre "de cima".
    E agora, questiono-o, também eu, Sr. Professor:
    "Como agir?".
    Sinto-me, contudo, responsável, como cidadã, pelo que se tem vindo a passar. Exacta/ por falar, mas n/ agir!
    Mas reitero, agir de modo responsável - somos, afinal, PROFESSORES!
  • Sem imagem de perfil

    Adelina 28.12.2011

    É só para corrigir a palavra - ..... etários (e não como está escrito).
    Grata.
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