24-11

 

Carla Marques*

 

Os professores, que investiram numa formação científica e pedagógica, deparam-se atualmente com uma realidade escolar para a qual não se preparam e que, em nada, corresponde ao tipo de formação na qual se especializaram.
A escola pública enche-se de turmas “fabricadas” para o sucesso: CEF, EFA, PIEF… os nomes pouco importam. As realidades que cada uma destas siglas evoca tocam-se em muitos pontos. Um professor entra numa sala de aulas movido pela vontade de ensinar, de partilhar conhecimento, de abrir caminho aos alunos para que estes cresçam. Todavia, a realidade que se lhe oferece em nada corresponde a esta idealização, cada vez mais utópica, das funções da docência. São turmas repletas de alunos que não têm vontade de estar na escola, naquela ou em qualquer outra. São alunos a quem nenhum tipo de saber interessa, por muito motivadora que a acção didática possa ser. São seres enclausurados, que estão na escola sem ter um objetivo que se coadune com a realidade que os enquadra. São alunos violentos, que veem em qualquer atitude um pretexto para medir forças com o mundo. São trabalhadores cansados, que, ao final do dia, rumam em direção à Escola em busca de um diploma prometido (“mas, não seja muito exigente, professor…”).

 

 

O professor que sonhava a partilha do saber, que idealizou uma sociedade onde, pelo esforço, todos iriam mais longe, que acreditava que a Escola é uma porta para nos libertarmos das amarras da condição social, sonha, idealiza e acredita cada vez menos. Pedem-lhe que “controle” os alunos. Se não conseguir ensinar, paciência! Conseguir que os alunos se sentem na sala de aula, que participem ordeiramente, que saibam escrever o seu nome sem erros e que compreendam um texto de cinco linhas é já muito bom! E, de facto, é! Para todos aqueles que nem isto sabem! Mas cabe ao professor, aquele que investiu na sua formação e que sonhou partilhar saberes, promover estas aprendizagens? A exigência tem de se adaptar à realidade, dizem: alguma nos cursos de prosseguimento de estudo, menos nos profissionais, pouca nos outros, menos ainda nos cursos de educação e formação.
Os professores sentem que são forçados a realizar tarefas para as quais não foram preparados, que não escolheram, que não sabem fazer. São “guardas” de crianças violentas, ou indisciplinadas, ou preguiçosas. São psicólogos que procuram, intuitivamente, resolver problemas. São “facilitadores” de diplomas.
Criar um sistema que afasta os professores da sua verdadeira vocação, daquilo que sabem fazer melhor, é forçar a degradação de todo um sistema de ensino. Devemos ser uma escola inclusiva? Sim, sem dúvida. Mas tal não poderá significar que os que não querem, ou os que querem pouco, possam prejudicar os bons alunos ou afastar os professores da sua missão. O sucesso à força, por decreto, é uma perigosa neblina que confunde o espírito de muitos jovens, compromete o futuro do país e transforma os professores em seres desmotivados, perdidos na burocracia ou na descrença.
É urgente uma nova oportunidade para… a escola!

* Carla Marques - Mestre em Linguística e doutoranda na mesma área; autora de várias publicações de carácter didático e de caráter linguístico: docente na Escola Secundária/3 de Carregal do Sal.



publicado por Correio da Educação às 19:02
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De Anónimo a 1 de Dezembro de 2010 às 23:23
Este artigo merece toda a consideração! Como professora contratada de PIEF durante um ano lectivo, concordo na íntegra em tudo o que foi dito! Praticamente, quando o Agrupamento de Escolas nos 'indica' qual a turma em que vamos leccionar, não temos escolha, ou melhor dizendo uma 'nova oportunidade'...
Das duas uma: ou mergulhamos de cabeça no projecto porque acreditamos que pelo menos 10% daquelas crianças conseguem se recuperar, ou fingimos que estamos a ensinar alguma coisa e ansiosos para que acabe o ano lectivo...
Deveríamos ter, antes de tudo, uma formação suplementar fornecida gratuitamente pelo Ministério da Educação e Ministério do Trabalho e da Segurança Social.
Uma salva de palmas a todos os docentes que integram ou já integraram estes projectos!!!


De António Carlos Silveira a 6 de Dezembro de 2010 às 11:20
É verdade que há uma enorme pressão para que os números do sucesso escolar cresçam em todo o lado. Essa pressão não é exclusiva de CEF's PIEF's ou profissionais. Está presente em todos os perfis de ensino-aprendizagem , inclusivamente no ensino "regular". Os programas educacionais diferenciados, trazem vantagens e desvantagens, assim como os exame. Quando um professor entra numa sala de aula, deverá dar sempre "o máximo" independentemente de ter pela frente alunos de topo ou alunos com várias retenções. Eu sei que é difícil em várias situações. No entanto o dever mantém-se.
Sem me alargar mais em considerações sobre cef's e outros, uma última nota. Uma espécie de desabafo.
O ensino desde á muito (mesmo à muito) está virado para dotar os alunos das competências necessárias para uma aprendizagem ao longo da vida. Espanta-me e preocupa-me as constantes afirmações sobre a persistente necessidade de formação dos professores.
Qualquer coisa nova (e os CEF's não são novos) e lá vem o choradinho por mais mais formação. O professores são o grupo profissional mais bem qualificado (pelo menos assim o penso) logo cada um de nós terá de ter a capacidade de responder a novos contextos de ensino-apredizagem sem ter recorrer sistematicamente a formação formal. Não querendo ferir a susceptibilidade de ninguém , concluo com a seguinte afirmação "Quem não consegue aprender, não consegue ensinar"


De Margarida Pereira a 8 de Dezembro de 2010 às 18:33
A frase com que acaba o seu comentário é, no mínimo, insultuosa para qualquer professor que exerça as suas funções com idoneidade e seriedade, e revela alguma ignorância acerca da realidade escolar e uma certa incapacidade de interpretar, pois o artigo que comenta refere-se ao facto de os professores, apesar de saberem muito bem ensinar, não o conseguirem. Quem não sente necessidade de formação são os ignorantes.
Já agora permita-me uma pequena correcção - " O ensino desde á muito..." - desde HÁ muito.
Talvez esteja a necessitar de uma pequena formação em ortografia.


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