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Correio da Educação

Correio da Educação

Carla Marques*

Ou da estranha inversão entre os meios e os fins

 

Ao longo de todo um ano lectivo marcado pela expectativa da mudança, por alguma ansiedade e por muito marasmo, os professores aguardaram com a paciência possível as decisões da tutela. Estas revelaram-se escassas, foram lançadas a conta-gotas, desencontradas e avulsas, deixando os professores a suspeitar da possibilidade de um projecto maior, concebido na penumbra para ser lançado quando menos se espera ou quando as atenções se centram noutros interesses…

Sem entrar na teoria da conspiração, gostaríamos, todavia, de reflectir sobre uma das mais “inovadoras” medidas levadas a cabo pela actual equipa ministerial (dando aliás continuidade a um projecto da anterior equipa): a certificação das competências TIC.

Esta nova realidade merece algumas reflexões:

 

1. Todos os professores têm de ser detentores de um conjunto de competências TIC, das quais devem fazer prova, para que possam ser certificados.

Esta certificação não contempla o saber de “experiência feito”, que resulta do contacto diário com os mais diversificados meios digitais. Muito docentes aprenderam fazendo, experimentando, trocando impressões com os colegas e até com os alunos. Este saber não é certificável, segundo a legislação em vigor!

Muitos docentes deram os primeiros passos na informática ainda na década de 90 e, tendo adquirido as bases fundamentais, desenvolveram o seu percurso de forma autónoma. Este percurso não é certificável, segundo a legislação em vigor!

 

2. Os professores que não comprovarem ser detentores de competências TIC ou cujas competências não sejam certificadas deverão frequentar cursos de formação que lhes confiram as referidas competências.

Muitos professores frequentaram já acções de formação em TIC de boa qualidade e até dotadas de algum interesse. Mas, muitos professores conhecem também muitas outras acções de formação em TIC, onde o saber transmitido é pardacento, os conteúdos amorfos, o tecnicismo insuportável. Muitos vivenciaram já a metodologia do “experimente você”, que ocupa longas horas da formação e que, facilmente, poderia ter sido desenvolvida em casa, em horários mais favoráveis e quiçá com uma concentração mais apurada.

Por tudo isto, não resistimos a perguntar: é deste modo que vamos desenvolver as competências TIC? É deste modo que nos “certificamos”? Sim, segundo a legislação em vigor!

 

3. As competências TIC deveriam funcionar como um recurso pedagógico e didáctico para o desenvolvimento das estratégias de ensino. Quantas acções de formação estão vocacionadas para as especificidades particulares de cada disciplina? Muitas ficam-se por generalidades e até por inutilidades.

E perguntamo-nos: se não for o professor a empenhar-se, a desenvolver projectos específicos para a sua disciplina, tendo em conta as particularidades dos seus alunos, para que servem as competências TIC? Esse assunto não está contemplado na legislação em vigor!

 

4. Promove-se a formação em áreas TIC num ano em que a formação em domínios específicos das diferentes disciplinas ficou subalternizada ou quase não existiu. E perguntamo-nos de novo: não resultará esta estratégia de um estranho conceito de “eduquês” (como agora se usa dizer) que subordina os conhecimentos efectivos associados a cada disciplina às estratégias TIC? Irrelevante, segundo a legislação em vigor!

Não gostaria de pensar que para o Ministério da Educação os conteúdos se situam cada vez mais num plano secundário, subordinados à imponência dos Planos Tecnológicos, dos “Magalhães”, dos computadores portáteis para professores e alunos, dos quadros interactivos, das câmaras e de toda uma parafernália que só causa ruído e confunde, ofuscando o verdadeiro objectivo do ensino. A aposta nas competências TIC é estruturante, segundo a legislação em vigor!

Um aluno interpreta melhor um texto se o vir projectado no quadro interactivo e ser vir partes desse texto passearem-se pelo quadro numa animação “bué da gira”?

Um aluno compreende melhor uma equação se a vir montada e desmontada numa apresentação flash “espectacular”?

Um aluno fará uma melhor apresentação oral do seu trabalho se usar uma apresentação em power-point “muita gira”, que acabará por ler do princípio ao fim para gáudio da audiência que se deixará embalar pelas animações “muita loucas”, pela música de fundo “demais” e pelas imagens “muita fixes”?

A legislação em vigor não se debruça sobre estes domínios!

 

Não tenhamos ilusões! As ferramentas TIC são meios e nunca poderão ser fins em si próprias. O aluno só aprenderá se quiser aprender e se o professor ensinar, na verdadeira acepção do termo! As TIC serão muito úteis enquanto meios, mas nunca se poderão substituir ao conhecimento que a escola tem por missão transmitir.

Se continuarmos a confundir os meios com os fins, corremos o risco de transformar as nossas escolas em centros educativos de animação e entretenimento, onde as crianças se sentem muito felizes porque vêem coisas bonitas e porque… não precisam de desenvolver qualquer esforço ou sequer de pensar!

Esta é a grande questão que se coloca no momento actual. Não podemos ser levados pelo marasmo ou pelo acriticismo. Devemos reflectir seriamente sobre o que se pretende para a escola pública ou então… “certifiquemo-nos”! E já agora venham as pipocas!

Carla Marques - Mestre em Linguística e doutoranda na mesma área; autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico: docente na Escola Secundária/3 de Carregal do Sal.

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